Não basta tratar, tem que reusar.

Desperdício e irregularidades agravam abastecimento de água

Especialista em tratamento de águas e efluentes alerta para a necessidade imediata de conter o desperdício de água no Brasil e fiscalizar instalações clandestinas de captação

A Conferência ETHOS 360°, realizada em outubro de 2014 em São Paulo, teve entre seus palestrantes o especialista em tratamento de águas e efluentes, Manoel Gomes de Souza, diretor comercial da Água Pura, e também diretor da Associação das Empresas e Instituições do Mercado Ambiental do Estado do Espírito Santo. A participação dele ocorreu por meio de convite do Centro Sebrae de Sustentabilidade, que levou para o evento a experiência de sucesso de alguns empreendedores brasileiros.

Manoel Gomes de Souza fala sobre o reaproveitamento da água durante a Conferência ETHOS 360°

Manoel Gomes de Souza fala sobre o reaproveitamento da água durante a Conferência ETHOS 360°

Presente em eventos de abrangência nacional, como o do Instituto Ethos, o Sebrae procura divulgar práticas de gestão sustentável, desmistificando a ideia de que elas estão ao alcance somente das grandes empresas e conglomerados empresariais. O diretor da Água Pura observa que as micro, pequenas e médias empresas ganham ao adotarem uma gestão sustentável, inclusive quando fazem isso a título de investimento. “Ao falarmos em cadeia produtiva, vimos que as grandes empresas se preocupam em ter parceiros alinhados com suas políticas ambientais, sobretudo se estão sujeitas a certificações, normas e legislação”.
A Conferência ETHOS 360° foi uma oportunidade para Manoel Gomes de Souza abordar sobre a necessidade do reuso da água e mostrar os aspectos economicamente viáveis das estações de tratamento que, em certos casos, chega a ser um fator determinante para a sobrevivência da empresa. Segundo ele, a severa escassez de água porque passa São Paulo ascendeu o debate acerca de como se deve proceder com relação a medidas preventivas e corretivas visando o abastecimento da população, não só lá, mas também em outros estados.
Para Manoel Gomes de Souza esse é um momento de reflexão sobre a “zona de conforto” prevalente durante séculos, quando se acreditava que os recursos naturais eram infinitos. “Nós, brasileiros, crescemos sob a égide de uma cultura criminosa, a do desperdício”, diz o especialista. “Ainda é normal nos depararmos com pessoas lavando calçadas, jogando fora uma água tratada dentro dos parâmetros impostos para a potabilidade (características necessárias para o consumo humano), e ainda fluorada, o que a torna um importante agente na prevenção de cáries, e boa dentição de crianças e adultos”.

Perdas e danos ambientais
– Estima-se que o Brasil perde 40% de toda a água tratada. No Amazonas, especificamente, o desperdício chega a 70%, segundo fontes oficiais. Mesmo em São Paulo, onde a crise hídrica é a maior dos últimos 80 anos, o desperdício é da ordem de 26%. Além dos vazamentos nos encanamentos, a população que paga pela água tratada enfrenta outro problema, os chamados “gatos”, que são as ligações clandestinas.
Manoel Gomes de Souza disse que há algo ainda mais preocupante e desconhecido da população. É o fato de que a maioria das empresas não paga pela água consumida em seus processos produtivos. A água, via de regra, é captada nas reservas subterrâneas, ou seja, nos poços artesianos ou mesmo diretamente de rios e córregos, de forma clandestina. Para extrair água de rios e córregos é preciso ter outorga legal. Há ainda os casos de quem, segundo ele, mesmo tendo a outorga legal, utiliza volumes maiores do que os permitidos, sem serem incomodados, dada a falta de fiscalização dos órgãos competentes para tal. “O volume de água retirada desses lençóis freáticos é maior do que o de seu retorno natural, conseguido via absorção pelo solo”, alerta Gomes de Souza.
Na opinião dele, os problemas relacionados à água no Brasil só poderão ser combatidos pela mesma ferramenta indicada para outros males, a educação. “Hoje o reuso de água se mostra economicamente viável e, em muitos casos, a única saída para a permanência no mercado de várias indústrias e prestadores de serviços”.
Sobre os custos de implantação de estações de tratamento de água e efluentes, o diretor comercial da Água Pura diz serem acessíveis, se comparados aos demais custos de operação ou manutenção das empresas. O grau de complexidade do processo de implantação, por sua vez, vai depender do tipo de efluente a ser tratado, da carga orgânica do mesmo e da norma ou parâmetro ambiental ao qual este deve se enquadrar. A qualidade e eficiência do projeto também influenciam nos custos de implantação. Estes devem observar o melhor aproveitamento do espaço físico disponível e, em certos casos, utilizar tanques e/ou equipamentos já existentes para baratear os custos, explica Gomes de Souza.